Sobre as indulgências, um pormenor deve ser salientado: As críticas às indulgências derivam de uma crescente identidade nacional, que constituíam um bônus exorbitante aos já proeminentes arrendamentos de impostos que a Igreja recebia de toda a Europa por ser latifundiária e, especialmente, do fato de que a península itálica (que à época era composta por um conjunto de cidades-Estados) era o berço da Renascença, detinha controle sobre o mar mediterrâneo, rotas comerciais intramarinas com o oriente, acumulando grande capital e riqueza mercantil que contrastava com economias pouco desenvolvidas como a do interior alemão. Além do mais, esses estados relativamente independentes que compunham a península itálica disputavam entre si o controle soberano dessas rotas. Alguns desses estados eram os estados pontifícios satélites de Roma. Assim, cobrar indulgências para além de tudo o que já era arrecadado para construir templos ou financiar batalhas passou a ser visto como algo indevido e indesejado, já que a Itália já era uma região muito rica. Essa sensação agrava-se com o controle ultramarino e as expansões em busca de novas rotas para o oriente da Península Ibérica (que conduzirão à descoberta das Américas), especialmente após o papa ter repartido o Novo Mundo entre Portugal e Espanha.
Em 1519, Lutero envolveu-se em um debate com Johann Ecko em que pela primeira vez negou publicamente o direito divino do Sumo Pontífice e da suposta autoridade deste de possuir as chaves do Céu que, segundo ele, haviam sido outorgadas apenas ao próprio Apóstolo Pedro, não passando para seus sucessores, também negou que a salvação pertencesse à Igreja Católica ocidental sob a autoridade do Papa. Depois do debate, Ecko afirmou que forçara Lutero a admitir a semelhança de sua própria doutrina com a de Jan Hus, que havia sido queimado na fogueira da Inquisição.
Posteriormente, as críticas de Lutero se direcionaram para um campo teológico mais amplo, tais como os sacramentos, liturgia, pecado original e outros temas. Em 1519 Lutero foi acusado de heresia pelo que tinha publicado e as autoridades eclesiásticas exigiram que ele se retratasse. Em 1520, o Papa Leão X condenou os principais pontos da nova doutrina por meio da bula Exsurge Domine e exigiu que Lutero se retratasse em um prazo de 70 dias a partir da sua publicação. Os escritos de Lutero circularam amplamente pela França, Inglaterra e Itália. Os humanistas, nobres e humanistas/nobres acalentaram Lutero como a um filho, Melanchthon, Reuchlin e Erasmo de Roterdã, o nobre Franz von Sickingen Frederico III e Silvestre de Schauenbur queriam manter Lutero sob sua proteção, convidando-o para seus castelos na eventualidade de não ser-lhe seguro permanecer na Saxônia, em virtude da proscrição papal.
Rodeado desses amigos, Lutero sentiu-se à vontade para publicar, em 1520, "À Nobreza Cristã da Nação Alemã" onde recomendava ao laicado, como um sacerdote espiritual, que fizesse a reforma requerida por Deus, mas abandonada pelo Papa e pelo clero. Pela primeira vez, Lutero referiu-se ao Papa como o Anticristo, além de ter atacado o celibato, a formatação das missas católicas, utilização de imagens de escultura nos templos, interpretações divergentes para o Batismo, Eucaristia e Penitência.
Em resposta à ameaça de excomunhão do Papa, em outubro de 1520, Lutero enviou seu escrito "A Liberdade de um Cristão" ao Papa, acrescentando a frase significativa: "Eu não me submeto a leis ao interpretar a palavra de Deus".
Lutero queimou publicamente a bula papal e, decorridos 120 dias de tentativas de conciliação entre o papa e o imperador Carlos V vs. os amigos de Lutero, ele foi excomungado em 03-01-1521 na bula "Decet Romanum Pontificem". No mesmo ano, León X morreu, mas os Médici voltariam ao poder em Roma menos de 1 ano depois, com as eleições de Giulio de Medici - papa Clemens VII (1523-1534), Giovanni Angelo Medici di, Papa Pius IV (1559-1565) e Alessandro Ottaviano de Medici, Papa León XI – que foi papa apenas por 17 dias (1605).
Precedendo os protestos de Lutero, na Inglaterra a rixa entre a nação e a igreja é longa... Durante a Guerra dos Cem Anos entre a França e a Inglaterra, cresceu nos ingleses um forte sentimento nacionalista. Enquanto isso, a Igreja coletava pesados impostos dos ingleses (quase metade das terras pertenciam à Igreja Católica) e as enviava para sua nova sede que fora transferida de Roma para Avinhão (na França) graças ao Cisma do Ocidente.
A elite inglesa reagia à ideia de enviar dinheiro aos papas, pois esta era uma atitude vista como ajuda ao sustento do próprio inimigo. Neste ambiente hostil à França e à Igreja, um professor de Oxford - John Wycliffe - teólogo nacionalista e popularmente bem quisto por enfrentar as demandas do papado, pregou 18 Teses contra a Doutrina Católica (dentre elas, a Supremacia das Sagradas Escrituras) e decidiu traduzir a Bíblia para o inglês por volta de 1376.
Wycliffe é intimado para no dia 3 de fevereiro de 1377 apresentar-se na Catedral de São Paulo, diante do Bispo de Londres, para lhe explanar as "coisas surpreendentes que brotaram de sua boca". Este desfrutou quase imediatamente de grande apoio, não apenas político, como também popular, compareceu acompanhado de vários amigos influentes e quatro monges foram seus advogados. Uma multidão aglomerou-se na igreja para apoiar Wycliffe e houve animosidades com o bispo. Tudo começou com uma briga violenta sobre se Wycliffe deveria sentar-se ou não. Juan de Gaunt, filho do rei e aliado de Wycliffe, reiterou que os acusados permanecessem sentados; já o bispo exigiu que ele se levantasse. Isto irritou ainda mais o clero e os ataques contra Wycliffe se intensificaram, acusando-o de blasfêmia, orgulho e heresia. Enquanto isso, os partidos no Parlamento inglês pareciam convictos de que os monges poderiam ser melhor controlados se fossem aliviados de suas obrigações seculares.
Em 22 de maio de 1377, o Papa Gregório XI, que em janeiro havia abandonado Avinhão para retornar a sede da Igreja a Roma, expediu uma bula contra Wycliffe, declarando que suas 18 teses eram errôneas e perigosas para a Igreja e o Estado e o acusou de "vomitar do calabouço sujo de seu coração as mais perversas e condenáveis heresias". O apoio de que Wycliffe desfrutava na corte e no parlamento tornaram a bula sem efeito prático, pois era geral a opinião de que a Igreja estava exaurindo os cofres ingleses. Apesar disso, Wycliffe foi posto em prisão domiciliar. Mais tarde, acabou forçado a deixar seu posto como professor do Balliol College, em Oxford. Em 1382, Wycliffe ousou começar a traduzir a Bíblia para o inglês. Em 1384 morreu e o projeto continuou com seus assistentes, levando 13 anos para ser totalmente concluída. Uma reação violenta eclodiu a partir da circulação dos primeiros protótipos da tradução. Já em 1391, um projeto de lei foi apresentado ao Parlamento para proibir a Bíblia em inglês e prender qualquer pessoa que possuísse uma cópia do livro sagrado. O projeto de lei não foi aprovado - John de Gaunt cuidou disso no Parlamento -, mas a igreja retomou não cessou sua perseguição contra Wycliffe (ou contra sua memória).
As teses do professor Wycliffe foram retomadas por
Jan Huss, professor da Universidade de Praga, que intensificou os ataques à Doutrina Católica alegando que ninguém podia representar Cristo ou São Pedro se não os imitasse em seus costumes e tecendo pesadas críticas às polêmicas indulgências. Inspirado por Wycliffe, Huss reuniu uma equipe de estudiosos e em 1416 surgiu a primeira Bíblia tcheca. Suas críticas contextualmente ocorreram no chamado Cisma do Ocidente (já mencionado), período em que três pontífices reclamavam serem os verdadeiros papas. O julgamento de Huss que ocorreu durante e no Concílio de Constança é considerado um dos mais espetaculares da História. A audiência teve a presença de quase todos os líderes europeus. Um arcebispo chegou com 600 cavalos; 700 prostitutas ofereceram seus serviços; 500 pessoas se afogaram no lago e o papa caiu da carruagem na neve de forma cômica. O Concílio de Constança condenou as ideias de Huss em 1415, mas ele não retrocedeu. Foi queimado vivo pela Santa Inquisição naquele mesmo ano. Sua morte desencadeou uma revolta popular: sacerdotes e igrejas foram atacados e a Boêmia entrou em guerra civil entre 1419-1436, nas chamadas
Guerras Hussitas. Em meados do século XV, o jovem rei Ladislau faleceu e o regente, Jorge de Poděbrady de inclinações hussitas coroou-se como o rei dos tchecos, voltando atrás na promessa que havia feito de se converter ao catolicismo. Em virtude dos eventos, o Papa Paulo II apelou a uma cruzada contra os hereges hussitas e o rei Matias Corvino da Hungria respondeu em auxílio enviando seus exércitos contra Poděbrady. No entanto, os hussitas eram numerosos e resistiram a uma série de movimentos das cruzadas, fundando a Igreja da Morábia e tendo inclusive fôlego suficiente para realizar incursões na direção da Polônia e da Alemanha. Apesar disso, terminaram por ser dominados e dizimados.
Quando estava para ser queimado, Jan Juss teria dito ao carrasco: "Hoje vocês queimam um ganso (Hus significa "ganso" na língua boêmia), doravante, em um tempo cantará um cisne. E a este cisne vocês não poderão queimar". Em 1531, Lutero comentou essa "profecia" de Jan Huss ao tecer considerações sobre o Édito Imperial de 1531 - sobre o qual já falaremos: “Eu, Dr. Martim Lutero, fui chamado para esse ofício e fui compelido a me tornar doutor, sem qualquer iniciativa minha, mas por pura obediência. Eu fui obrigado a aceitar o ofício de doutor e fazer meu juramento, de que eu pregaria e ensinaria com fidelidade a tão amada Sagrada Escritura. Enquanto eu estava engajado no ensino, o papado cruzou meu caminho e queria me impedir. Mas, não me impedirá. Em nome da vocação de Deus, eu andarei sobre o leão e sobre a víbora pisarei com os meus pés. E o que começou em minha vida se completará, até mesmo após a minha morte. João Huss profetizou de mim: ‘Assarão um ganso agora, mas ouvirão um cisne cantar e terão que aguentá-lo’”.
Em 1427, o papa Martinho V ordenou que os ossos de John Wycliffe fossem exumados de seu túmulo, queimados e jogados em um rio. Embora houvesse morrido há 40 anos, mas a fúria causada por sua ofensa ainda permanecia viva. Nas palavras do arcebispo de Canterbury Wycliffe houvera sido "aquele canalha pestilento, de memória condenável, sim, o precursor e discípulo do Anticristo que, além de sua maldade, inventou uma nova tradução das Escrituras em sua língua materna".
Mas, voltando a Lutero, falemos sobre a Dieta de Worms. A Dieta de Worms foi uma Reunião de cúpula oficial, governamental e religiosa ocorrida em Worms (Alemanha) entre Janeiro e Maio de 1521 e que convocou Lutero para desmentir suas teses frente ao imperador Carlos V e as autoridades eclesiais. Na convocação, foi assegurado a Lutero um salvo-conduto para lhe garantir um seguro deslocamento. No entanto, Lutero não desmentiu suas posturas. Defendeu e pediu a reforma da Igreja Católica, entre 16 e 18 de Abril de 1521.
No contexto pós-albigenses, Lutero é considerado o pioneiro a pregar de forma impetuosa a desobediência civil, com outra interpretação do texto de romanos 13, onde se assumiria o respeito às autoridades eclesiais e aos imperadores e reis.
"- Lutero, repeles seus livros e os erros que eles contêm? - Que se me convençam mediante testemunho das Escrituras e claros argumentos da razão, porque não acredito nem no Papa nem nos concílios já que está provado amiúde que estão errados, contradizendo-se a si mesmos - pelos textos da Sagrada Escritura que citei, estou submetido a minha consciência e unido à palavra de Deus. Por isto, não posso nem quero retratar-me de nada, porque fazer algo contra a consciência não é seguro, nem saudável."
Após a Dieta de Worms, foi promulgada o Édito de Worms (25 de maio de 1521) que proibia a posse e leitura dos escritos de Martinho Lutero e decretava que ele era um criminoso perigoso e inimigo da Alemanha. Em adição, qualquer civil poderia matar Lutero sem sofrer qualquer tipo de punição por isso. Como previsto, os líderes religiosos e o imperador anularam o salvo-conduto visando matar Lutero e acabar com o foco da insurreição de uma vez por todas. Pouco antes da promulgação, no entanto, Lutero (que era protegido por Frederico III, nobre príncipe da Saxônica) acabou fugindo, pois Frederico promoveu sua fuga e o protegeu no castelo de Wartburg por vários anos, tempo que Lutero aproveitou para traduzir a Bíblia para o alemão. Os germânicos impressionados com a ousadia de Lutero em afrontar os representantes do Senhor Deus, passaram a se converter em massa, o que fortalecia o Movimento Protestante no norte da Alemanha.
Em abril de 1523, Lutero ajudou 12 freiras a escapar do cativeiro no Convento de Nimbschen. Entre essas freiras encontrava-se Catarina von Bora, filha de nobre família, com quem veio a se casar, em 13 de junho de 1525. Desta união nasceram seis filhos. Um descendente ilustre da família Lutero é o ex-presidente alemão Paul von Hindenburg.
O casamento de Lutero com a ex-freira cisterciense incentivou o casamento de outros padres e freiras que haviam adotado a Reforma. Este evento é considerado a cisão definitiva no cristianismo.
"(…)Tanto o bastão quanto a espada deveriam se dirigir para o mesmo lado (…) que se quebre o braço do ímpio, que se persiga sua iniquidade (…). Estas palavras nos ensinam que é desta maneira que a autoridade do Papa (…) será destruída". - Trecho do opúsculo "Sincera admoestação a todos os cristãos para que se guardem de toda revolta" (escrito originalmente em 1522 por Martinho Lutero [sobre o Papado])
Paralelamente, na Suíça, a burguesia já houvera ganhado grande influência nas cidades-república de Genebra, Zurique, Basiléia e Berna. No entanto, o poderio econômico dessa nova classe social era tolhido pelos poderes políticos preservados nas mãos dos clérigos que administravam esses mesmos centros urbanos.
Na Inglaterra de 1522, a tradução de Wycliffe ainda estava proibida e, embora as cópias dos manuscritos estivessem disponíveis no mercado negro, eram difíceis de encontrar e caras de adquirir. A maioria das pessoas ainda não tinha ideia do que a Bíblia realmente dizia. Foi nesse contexto que William Tyndale decidiu empreender uma nova tradução da Bíblia para o inglês - desta vez, acessível, atualizada e fazendo uso sistemático da imprensa.
Lutero já houvera concluído sua tradução da Bíblia para o alemão; a Reforma Protestante estava se acelerando e Tyndale achava que teria mais sucesso com seu projeto ali. Então, viajou até Colônia e começou a imprimi-la. Sua iniciativa provou-se um erro. Colônia ainda estava sob o controle de um arcebispo leal a Roma.
Quando estava no meio da impressão do Evangelho de São Mateus, descobriu que as autoridades estavam prestes a invadir a gráfica. Rapidamente, pegou seus originais e fugiu. Essa história se repetia várias vezes. Tyndale passou os anos seguintes esquivando-se de espiões ingleses e de agentes romanos. Mas ele conseguiu concluir sua Bíblia e as cópias logo inundaram a Inglaterra ─ ilegalmente, é claro. O projeto estava completo, mas Tyndale era um homem marcado pelas autoridades. E ele não era o único.
O cardeal Wolsey estava fazendo campanha contra a Bíblia de Tyndale. Ninguém próximo a Tyndale estava a salvo. Thomas Hitton, um padre que conheceu Tyndale na Europa, confessou ter contrabandeado duas cópias da Bíblia para a Inglaterra. Ele foi acusado de heresia e queimado vivo. Um advogado que mal conhecia Tyndale, Thomas Bilney, também foi jogado nas chamas em 1531. Richard Bayfield, um monge que havia sido um dos primeiros apoiadores de Tyndale, foi torturado incessantemente antes de ser amarrado à estaca e queimado. E um grupo de estudantes em Oxford foi confinado em uma masmorra, usada para armazenar peixes salgados, até a morte.
O fim de Tyndale não foi menos trágico. Ele foi traído em 1535 por Henry Phillips, um jovem aristocrata que roubara o dinheiro do pai e o perdera em apostas. Tyndale estava escondido em Antuérpia, sob a proteção quase diplomática da comunidade mercantil inglesa. Phillips tornou-se amigo de Tyndale e o convidou para jantar. Quando deixaram a casa do comerciante inglês juntos, Phillips fez um gesto a criminosos para que Tyndale fosse preso.
Tyndale foi acusado de heresia em agosto de 1536 e queimado na fogueira algumas semanas depois. Em Antuérpia, a cidade onde Tyndale acreditava estar seguro, Jacob van Liesveldt produziu uma Bíblia em holandês. Van Liesveldt foi preso, acusado de heresia e condenado à morte.
Foi nesse contexto que, no início do século XVI, o padre Ulrico Zuinglio começou a se aproximar das ideias defendidas por Martinho Lutero. Durante sua vida, o padre humanista teve grande atuação entre os populares que sofreram com o surto de peste bubônica que assolou as ruas de Zurique. Essa experiência vivida pelo clérigo o alertou para a reforma do catolicismo defendendo um tipo de experiência religiosa mais simples e atuante que ficou conhecida como Anabatismo. Zuinglio defendia a predestinação absoluta e criticava a confissão religiosa nas igrejas. Os anabatistas acabaram se entregando à Anarquia por toda a década de 20. No ano de 1531, Zwingli tentou aproximar sua nova perspectiva religiosa dos grupos conservadores da Suíça. Sua tentativa de mudança criou uma guerra civil que provocou a morte do líder religioso. Mesmo sendo morto, seu esforço resultou na assinatura da Paz de Kappel, que permitiu a liberdade religiosa no interior da Suíça. A onda reformista atingiu o país como um todo.
Em 1532, um francês chamado João Calvino, humanista que teve contato com a literatura grega antiga, converteu-se ao Luteranismo. Em 1536 publicou uma obra chamada Instituição Cristã. A perseguição aos luteranos na França católica era severa e Calvino fugiu e exilou-se em Genebra. Lá, teve contato com as ideias de Zuinglio e do Anabatismo e acabou, juntamente com outros pregadores, promovendo aquilo que foi considerado um dos primeiros cismas, de certa forma abrupto, do protestantismo que acabara de nascer (já que o esta nova concepção foi, posteriormente, atacado pelo luteranismo e, claro, pela Igreja Católica) fundando, portanto, uma outra vertente protestante dissidente do luteranismo e do anabatismo que ficou conhecida como calvinismo. O Calvinismo tornou-se influente e foi responsável por ascender Genebra ao posto de Principal Centro Protestante da Europa, sendo uma dissidência religiosa, às vezes interpretada como maquiavelicamente projetada para se adaptar à sociedade capitalista que vivia, ali, o seu despontar. Já que esta vertente protestante, sociologicamente falando, romperia com o legado católico greco-romano de entender o ócio como uma virtude, a ideia de repulsa ao lucro e por enxergar inovadoramente o Trabalho e a Poupança como pré-requisitos indispensáveis para alcançar a salvação. Lutero e Calvino eram hostis um ao outro, enquanto Lutero apenas queria reformar a Igreja Católica, Calvino acreditava que a igreja estava tão degenerada que era preciso romper completamente com as ideias católicas e promover aquilo que ele chamava de "novo batismo". Calvino idealizou um Estado pseudo-totalitário composto apenas por pessoas santas e, portanto, postulando que cidadãos evangélicos teriam o dever moral de regular a conduta uns dos outros. O Estado calvinista impôs regras rígidas ligadas aos costumes sexuais, vestuário, comparecimento à Igreja e negócios comerciais. Aboliu a censura que a Igreja de Roma dava a certas práticas comerciais, como a cobrança de juros e, num futuro não muito distante, no contexto das Revoluções Industriais, "preguiçosos" foram considerados pecadores, indolentes e criminosos, sendo intensamente reprimidos pelos Estados protestantes. O Calvinismo ganhou força na Escócia, na Holanda, na França e, de forma adaptada, na Inglaterra.
A população suíça era proibida de cultivar certos hábitos, como jogar, dançar e representar. Durante a Reforma nos Países Baixos iniciada em 1560, a partir de agosto de 1566, uma multidão de calvinistas invadiu a Igreja de Hondschoote na Flandres (atualmente Norte da França) com a finalidade de destruir imagens, ícones, esculturas e obras de arte católicas. Esse incidente provocou outros semelhantes nas províncias do norte e sul, conhecido como "Beeldenstorm", em que calvinistas invadiram igrejas e outros edifícios católicos, para destruir estátuas e imagens de santos em toda a Holanda, o que provocou uma enorme perda de patrimônio histórico e cultural daquela época. Alguns pensadores foram perseguidos, como o médico e humanista espanhol Miguel Servet Griza, um dos primeiros "médicos" conhecidos a descrever o movimento pulmonar. Servet foi preso pelo Tribunal do Santo Ofício em 1553 na França, mas conseguiu escapar. Mesmo ausente, ele foi condenado por heresia pela Inquisição católica francesa sendo queimado simbolicamente representado por um boneco. Todos os seus livros também foram queimados. Servert tencionava fugir para a Itália, mas acabou preso em Genebra, caindo nas mãos do "papa de Genebra", Calvino. Ele foi preso, processado e condenado pelo Conselho presidido por Calvino (que consultou outros reformadores como Lutero e obteve consenso para aplicar a execução), sendo queimado na fogueira por heresia.
"Quem sustenta que é errado punir hereges e blasfemadores, pois nos tornamos cúmplices de seus crimes (…). Não se trata aqui da autoridade do homem, é Deus quem fala (…). Portanto se Ele exigir de nós algo de tão extrema gravidade, para que mostremos que lhe pagamos a honra devida, estabelecendo o seu serviço acima de toda consideração humana, que não poupamos parentes, nem de qualquer sangue, e esquecemos toda a humanidade, quando o assunto é o combate pela Sua glória" - João Calvino
Na Escócia, um amigo de João Calvino chamado John Knox, modifica certos aspectos do calvinismo e dá origem à Igreja Presbiteriana. Na Espanha, Casidoro de Reina traduz a Bíblia para o castelhano (que ficou conhecida como La Biblia del Oso). Foi alvo do Santo Ofício, tendo conseguido fugir para a Alemanha, mas o Santo Ofício o condenou queimando um boneco (efígie) em seu lugar.
Nas tretas do século XVI, o rei Henrique VIII defendia a Igreja Católica e se contrapunha às 95 Teses de Lutero. No entanto, isso iria mudar quando Henrique solicitou ao papa Clemente VII a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão, alegando que esta não conseguia lhe dar um filho homem. A Igreja Católica não podia divorciar Henrique e Catarina, pois ela era tia do Rei Carlos V (O monarca católico do Sacro Império Romano-Germânico sobre o qual falaremos daqui a pouco). Como o papa recusou-se a dar o divórcio, Henrique VIII rompeu a ligação estatal da Inglaterra com a Santa Sé, criou uma nova vertente protestante-cristã chamada Anglicanismo e se autoproclamou, em 1531, "Protetor da Igreja Inglesa" e os seus descendentes como sucessores eclesiásticos. Aprovou uma medida chamada Ato de Supremacia, em que suprimiu os mosteiros católicos e confiscou as propriedades da Igreja Inglesa.
Henrique VIII casou-se secretamente com Ana Bolena em 1532 e, mais tarde, esse casamento foi validado após uma série de disputas pseudoteológicas pelo Conselho da Igreja Anglicana. Catarina foi despojada de seus títulos de rainha sendo que a única descendência que legou ao rei foi Maria I Tudor nascida em 1516. Ana Bolena foi coroada rainha consorte em 1 de junho de 1533 e teve uma filha que foi batizada com o nome de Elizabeth I.
Notícias chegaram ao rei e à rainha em 8 de janeiro de 1536 que Catarina de Aragão havia morrido. Henrique convocou demonstrações públicas de alegria. Ana estava grávida novamente e sabia das consequências se não conseguisse dar à luz um menino. Mais tarde no mesmo mês, o rei caiu de um cavalo em um torneio de justas e foi seriamente ferido, parecendo por um tempo que sua vida estava em perigo. Quando as notícias do acidente chegaram à Ana, ela entrou em choque e abortou um menino de quinze semanas, exatamente no dia do funeral de Catarina em 29 de janeiro.
Longe das influências morais da Igreja de Roma e por uma série de tretas internas dentro da Inglaterra, além de uma reconfiguração nas tramas políticas envolvendo alianças de casamento que o rei Henrique gostaria de estabelecer e de seu aborto, os Protestantes Ingleses passaram a cogitar um segundo divórcio para o Rei e acabaram executando a rainha Ana Bolena, seu irmão e mais 5 homens entre 17 e 19 de maio de 1536 alegando "conspiração, adultério, incesto e bruxaria", no entanto, os historiadores veem sinais de que o rei já possuía uma nova amante. Esta amante, Joana Seymour - uma das damas de companhia da rainha - foi colocada em novos aposentos.
Um dia depois da execução de Ana, Henrique ficou noivo de Joana Seymour, eles se casaram dez dias depois. Joana deu à luz, em 12 de outubro de 1537, a um filho, o príncipe Eduardo. Ela morreu no parto. Medidas foram tomadas para encontrar uma nova esposa para o rei, que, pela insistência de Cromwell e da corte, foram focadas no continente europeu. Henrique promulgou em um de seus Decretos de Sucessão, que os filhos de Henrique com Joana, seriam os próximos na linha de sucessão e declarava Maria e Elizabeth como ilegítimas, excluindo-as do trono. O rei também recebeu, em caso de não ter outro descendente, o poder de determinar a linha de sucessão a sua própria vontade.
Pouco tempo depois, Henrique VIII, então viúvo, manifestou o desejo de querer casar novamente "para garantir a linha de sucessão". Foi, então, contraído matrimônio com Ana de Cleves. No entanto, logo após o casamento, Henrique VIII quis anulá-lo, e assim o fez, alegando que jamais fora "consumado". Ana recebeu o título de "A Amada Irmã do Rei", aqui, o rei já manifestava interesse em Catarina Howard, sobrinha de Tomás Howard, Terceiro Duque de Norfolk, algo que preocupava (e com razão) Cromwell, primeiro-ministro de Henrique VIII, já que ele era um oponente.
Pouco depois, os protegidos religiosos e reformistas de Cromwell foram queimados como hereges. Cromwell, enquanto isso, caiu em desgraça, sendo acusado de traição, venda de licenças de exportação, concessão de passaportes e formação de comissões sem permissão e também pode ter sido acusado pelo fracasso no casamento com Ana e no fracasso da política externa que isso acarretou. Com isso, foi preso e decapitado, embora não se tenha elegido outrem para ocupar o seu título como Vice Regente das Almas, um cargo criado especificamente para ele.
Henrique casou-se com Catarina Howard em 29 de julho de 1540, mesmo dia da execução de Cromwell. Mais uma vez, uma esposa do rei Henrique foi acusada de adultério e condenada à execução em 13 de fevereiro de 1541, decapitada.
Pela sexta e última vez, o rei Henrique VIII casou-se com uma moça chamada Catarina Parr em julho de 1543.
Henrique VIII decretou que os súditos deveriam submeter-se ou então seriam excomungados, perseguidos e executados. Tribunais religiosos foram instaurados e católicos foram obrigados a assistir cultos protestantes, importantes opositores foram mortos, entre os quais se destacam Thomas More, o bispo John Fischer e alguns sacerdotes, frades franciscanos e monges cartuxos. Em 1540, Henrique sancionou a destruição de relicários de santos. Os últimos mosteiros da Inglaterra foram dissolvidos e suas propriedades transferidas à coroa. Quando Henrique foi sucedido pelo seu filho, Eduardo VI (reinou de 1547-1553, 6 anos), os protestantes viram-se em ascensão no governo, que implementou uma reforma mais radical do que a do pai, diferenciando o anglicanismo ainda mais do catolicismo romano. Após Eduardo VI, a rainha Mary I, a Sanguinária (reinou de 1553-1558, 5 anos), tentou diluir o cisma protestante inglês e voltar à Igreja Católica. Recebeu este apelido porque sistematicamente perseguiu Protestantes sob o regresso da Inquisição Católica ao império. No entanto, não conseguiu resistir às pressões internas e foi decapitada pouco tempo depois de assumir o Trono, 5 anos, sem tempo, portanto, para solidificar o regresso inglês ao Catolicismo de Roma (a maré de sorte dos católicos não estava nada boa naquele século) e sua meia-irmã, Elizabeth I, assumiu o Trono e voltou às bases do Império ao Protestantismo. Elizabeth I foi excomungada pelo papa Pio V através da bula Regnans in Excelsis, em que este declarava a "Elizabeth I, a pretensa Rainha da Inglaterra e servente do crime" excomungada e herética, liberando todos seus súditos de qualquer lealdade a ela. O papa reiterou na bula que os católicos ingleses que obedecessem as suas ordens estavam ameaçados de excomunhão. Por causa disso, Elizabeth I passou a interpretar qualquer católico como inimigo da Coroa e empreendeu uma sistemática caça aos católicos, exterminando milhares e, inclusive, com caçadores de padres (priest hunters) que se assemelhavam bastante aos bandeirantes caçadores de Índios no Novo Mundo. Apesar disso, Elizabeth I buscou elucidar a existência de uma igreja claramente protestante, mas moderada, diluindo assim o forte cisma que seu irmão Eduardo VI criou, fazendo, portanto, um mix de diferentes instâncias católicas, luteranos e calvinistas. Algum tempo depois, calvinistas que tiveram contato com o anglicanismo iriam dar origem a uma nova vertente Protestante, o Puritanismo.
Elizabeth I morreu sem deixar herdeiros em 1603. Em seu lugar, assumiu seu primo, Jaime VI da Escócia e, depois, seu filho Carlos I. A perseguição aos puritanos intensificou-se nesse período e estes calvinistas ingleses fugiram do país, emigrando para as colônias da Nova Inglaterra (atual Estados Unidos), onde posteriormente declarariam independência e fundariam o país calcado na liberdade religiosa cristã. Estima-se que 40.000 pessoas tenham sido mortas só no primeiro ano da Reforma Inglesa.
Carlos I entrou em conflito direto com o parlamento que era contrário às perseguições religiosas dos puritanos e aos pesados impostos que ele cobrava. Em 1628, aprovaram a Segunda Carta Magna, limitando seus poderes de atuação. O documento não foi aceito pelo rei e ele fechou o parlamento em 1629, só voltando a convoca-lo em 1640. A insistência de Carlos em impor o anglicanismo levou à Inglaterra a uma guerra civil entre os cavaleiros (anglicanos favoráveis ao rei) e os chamados cabeças redondas (protestantes puritanos e anglicanos e partidários do Parlamento). A guerra civil terminou com a vitória dos cabeças redondas, liderados por Oliver Cromwell.
Carlos I foi executado em 1649 e a monarquia inglesa foi abolida, instituindo-se uma República liderada por Cromwell. Em 1653, Cromwell dominou o Conselho e a Câmara e impôs uma ditadura pessoal ao Estado agora chamado de Commonwealth. Após sua morte, Cromwell passou o poder a seu filho Ricardo que foi obrigado a renunciar pouco depois da posse. Um novo Parlamento foi eleito e este decidiu pela volta da Monarquia, coroando Carlos II (filho de Carlos I) como novo rei da, de novo, Inglaterra.
Apoiado por Roma, o rei Carlos II rapidamente mostrou-se um déspota que via no seu primo, o Rei da França, Luís XIV, seu modelo de governante. Rapidamente Carlos buscou reestabelecer e impor o catolicismo novamente na Inglaterra, dividindo a população e o Parlamento mais uma vez que voltaram a inflamar esses conflitos. Carlos II morreu em 1685 e o trono ficou com rei Jaime II, seu irmão. Ainda mais ferrenho defensor do catolicismo do que seu irmão, Jaime II conseguiu unir opositores do Parlamento contra si. Quando viram que o herdeiro do rei (fruto de um segundo casamento com uma católica) havia nascido, o Parlamento protestante iniciou uma grande Rebelião para depor o rei denominada Revolução Gloriosa.
Tribunais de Caça às Bruxas, bem como outros métodos de combate à heresia foram perpetrados tanto pela Igreja Católica quanto pelas Igrejas Protestantes (como a Igreja Anglicana, Igreja Luterana, Igreja Calvinista e Igreja Presbiteriana). Por exemplo, a Caça às Bruxas na Nova Inglaterra - atual Estados Unidos - em 1692 (as Bruxas de Salém) foi financiada pelos puritanos. Além de que enquanto as Igrejas Protestantes como a Luterana e a Anglicana propagavam a Bíblia e os seus ideais, também tornavam proibidos uma série de livros católicos e outros que contrariavam suas doutrinas (exatamente a mesma coisa que a Igreja Católica de Roma fazia).
Voltando à Alemanha, entre 1524 e 1526, os teólogos que beberam de Lutero, além de sua pequena legião de crentes já convertidos, peitavam impetuosamente a imposição de Fé da igreja Católica, e acabaram desencadeando a chamada Guerra dos Camponeses Alemães. Estima-se que 300.000 camponeses entre protestantes e católicos tenham morrido já que as manifestações de descontentamento foram duramente reprimidas pelos aristocratas católicos. Estes, ao final do massacre, fundaram a Liga de Dessau, um agrupamento de Estados católicos alemães para combater a insurreição. No entanto, o cerne protestante saia das massas e chegava ao coração de príncipes no Norte alemão. Essa treta só tava começando.
Enquanto isso, o Sacro Império Romano-Germânico via-se ameaçado pelo Império Otomano, dirigido por Suleiman Kanuni, que tinha conquistado a Hungria e se preparava para atacar a Áustria. O perigo exterior levou o imperador Carlos V, temeroso, a tentar diluir o conflito religioso interno. Foi, então, promulgada a Dieta de Speyer de 1526. Nela, foi-se acordado que o Édito de Worms "não poderia ser forçado", o que deu aos príncipes dos estados autonomia para decidir se toleravam ou não manifestações luteranas em suas províncias. Imediatamente após a Dieta de Speyer de 1526, os príncipes convertidos ao luteranismo criaram a chamada Liga de Torgau e, no ano seguinte, o príncipe João da Saxônia estabeleceu oficialmente a Igreja Luterana e assumiu como seu primeiro bispo, a partir daí, o Luteranismo expandiu-se por todo o norte da Alemanha com uma velocidade ímpar.
No plano de conflitos internacionais, explodiu entre o Sacro Império e o papa a guerra que culminou no Saque de Roma de 1527. Esse é um importantíssimo evento histórico que abortou a Renascença Italiana, a Expropriação do Humanismo pela Igreja e que promoveu o cruzamento de duas realidades igualmente devastadoras para a Causa da Santa Sé: A Internacionalização do Renascimento e As Rebeliões Protestantes.
Voltemos um tantinho: em 1521, o papa León X (Giovanni de Medici) morreu. Apesar de que o seu primo e melhor amigo, o cardeal Giulio era o favorito e um dos expoentes do conclave, o colégio decidiu por um tipo de papa de transição, o papa Hadrianus VI (cardeal Adriaan Boeyens) – tutor de Carlos V do Sacro Império, da família dos Habsburgo. Rapidamente, Francisco I da França ameaçou um cisma, mas Hadrianus não se mostrou especialmente inclinado a criar um Avignon Espanhol. De qualquer forma, morreu 1 ano após seu pontificado e não provocou grandes repercussões. No próximo conclave, Giulio conseguiu construir as alianças de que necessitava e foi eleito para a Cátedra de São Pedro, agora recebendo o nome de Clemente VII. Era o retorno dos Medici ao poder. Feito essa contextualização, certo... Estamos no meio da Guerra da Liga de Cognac e Espanha e Sacro Império pelejam contra o Papa Giulio de Medici, a República de Veneza, Inglaterra, o Ducado de Milão, Florença e França. Clemente já havia tido rixas severas com Carlos V pela pretensão sobre Gênova. Foi aprisionado por Carlos V e humilhado e obrigado a assinar o Tratado de Madri (1526). Quando se viu livre, contudo, decidiu incluir Francisco I na Liga de Cognac e rasgar o Tratado.
O papa – como bom Médici que era – apoiou a França porque ficou chocado com o fracasso dos franceses na Guerra Italiana de 1521 e na Batalha de Pavia e desejava dispersar a crescente influência da dinastia de Habsburgo sobre o cenário europeu. Roma viu em Carlos um progressivo subjugo para sua família, inclusive no âmbito interno da Itália e da Igreja. Além de visualizar a possibilidade de eventual intervenção direta (tudo o que a ICAR mais desejava) no conflito protestante que estava a pleno vapor naquele território, em caso de eventual vitória.
O primeiro grande conflito ocorreu em junho de 1526, na Lombardia, onde as forças de Francis I tentaram sitiar o castelo do duque de Milão, Francisco Sforza. Tendo como principais comandantes Antonio de Leyva e Alfonso del Guasto, além de serem reforçados pelo maior adversário interno do rei francês, o rebelde duque de Bourbon, o exército imperial não pode ser detido pelas tropas combinadas dos estados papais, Milão e Veneza, mesmo depois da chegada do reforço de mais soldados. Derrotados em Milão em fins de julho, só restou à Liga retirar-se do território e tentar tomar a vizinha Cremona. Mesmo sendo bem-sucedidos neste ponto, o sítio anterior permitiu a Carlos V agrupar mais exércitos vindos da Espanha e dos estados alemães. Francisco era fraco e indeciso, já Carlos V era veterano e um grande estrategista militar. O rei da França foi lerdo e o duque conseguiu se antecipar, atravessando os alpes e deixando o papa e a Igreja a sua própria sorte. Como se não bastasse, a Família dos Colonna – ainda extremamente amargurada e insatisfeita porque os Medicis venceram a eleição do Colégio de Cardeais – iniciaram um levante popular em Roma, fragilizando suas defesas. O cardeal Pompeo Colonna queria desgraçar Giulio Medici, que conseguiu retomar brevemente o comando. Mas o Dragão da Daenerys estava chegando e o Dracarys estava para ser comandado. Mais tarde, o próprio Pompeo apiedou-se das condições miseráveis dos cidadãos romanos e abrigou muitos deles em seu palácio.
Carlos não pretendia trazer a desgraça que viria sobre Roma. Propôs a Clemente um armistício de 8 meses, mediante pagamento de 60 mil ducados para as tropas. Só que o exército que vinha avançando não considerou tal montante satisfatório, pois os soldados que não recebiam salários há meses continuaram marchando sob a promessa de, possivelmente, Saquear Roma. No começo de 1527, eles já estavam ameaçando militarmente a própria Roma, já que as tropas combinadas dos estados papais, Milão e Veneza, mesmo depois da chegada do reforço de mais soldados, mostraram-se frágeis pra conter o avanço dos rebeldes.
A indisciplina dos revoltosos já se manifestara anteriormente com o saque das cidades de Acquapendente e San Lorenzo alle Grotte, mas a autoridade do duque de Bourbon ainda as mantinha sob controle. As tropas ocuparam Vitierbo e Ronciglione e, sem uma restrição considerável, desceram da Lombardia e entraram no Gianicolo (uma das sete colinas de Roma), atingindo seus muros em 5 de Maio, depois de derrotar as parcas tropas que a defendiam. Naquela noite, o sol esvaneceu-se pela última vez sobre a beleza deslumbrante da Roma renascentista.
Aqui, contudo, o duque de Bourbon, Carlos III - que mantinha uma parca autoridade sobre as tropas -, foi baleado e morreu. Com a morte do duque, prenunciou-se o caos que viria. Phillibert de Châlon sucedeu Carlos, mas a sua autoridade sobre as tropas era bem menor. Os soldados avançaram sobre o resquício de poder do papa, no evento conhecido como Stand da Guarda Suíça. Os guardas do Santo Padre - em menor número - fizeram barreira no Cemitério Teutônico no Vaticano. O capitão Kaspar Röist foi morto pelos espanhois na frente de sua esposa. Após uma vitória esmagadora, os sobreviventes recuaram para o Obelisco do Vaticano e, de lá, para a Basílica de São Pedro, junto aos degraus do altar-mor. Dos mais de 5 mil, apenas 42 sobreviveram - talvez desejaram não tê-lo feito - mas conseguiram afastar as tropas desordenadas da Comitiva do papa, que passou em segurança pelo Passetto di Borgo, via de ligação entre o Vaticano e o Castelo de Sant'Angelo, fortaleza que restara como último baluarte que ainda não tinha caído. Com a queda da última resistência, instaurou-se o inferno. De novo, algo como que a selvageria dos bárbaros caiu sobre a pomposa Roma. De fato, esse episódio é amplamente comparado em termos de danos provocados pelo Saque, à queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C., provocada pela invasão dos hérulos, liderados pelo bárbaro Odoacro.
Embora o próprio Martinho Lutero não fosse a favor de atacar Roma ou o papa, grande parte do exército de Carlos
– os mercenários Landskchnechte (Lansquenete), convertidos à fé de Martinho Lutero - enxergava o papa Clemente VII como o próprio anticristo, e, na impossibilidade de invadir o refúgio dele no Castelo de Sant'Angelo, nos arredores da cidade, degradaram Roma. Não podendo saciar sua fúria e ódio pelo papa, os camponeses se voltaram contra a cidade em si. Empreenderam assaltos entre Santo Onofre e o Hospital do bairro Espírito Santo em Saxia. Os pacientes foram as primeiras vítimas, acompanhados dos nobres romanos que tolamente correram para as portas do castelo que o papa Médici jamais abriria, buscando abrigo. A licença ilimitada para roubar e matar durou oito dias. Os religiosos foram as principais vítimas:
“faremos muitos mártires hoje”, era a palavra de ordem entre os evangélicos. Dentre os torturados sobreviventes, estava o presidente do Primeiro Tribunal da Santa Inquisição Romana e Universal, o cardeal Gian Carafa
(futuro Venerado Papa Paulus IV) e o cardeal Antonio Ghislieri
(futuro Papa São Pius V), ambos expoentes da Contra-Reforma Católica, do Concílio de Trento e da defesa fundamentalista da Fé Católica contra as heresias e pecados
(falamos sobre eles no artigo sobre a História da Homofobia Ocidental). Houve igrejas e palácios saqueados e depredados, padres e monges assassinados e freiras estupradas. A destruição artística também foi imensa, com pinturas valiosas destruídas e estátuas clássicas quebradas. A Biblioteca do Vaticano só seria poupado porque o comandante Phillibert, talvez num movimento estratégico, instalou seu quartel general ali depois que entrou na cidade. Até os cardeais carletes tiveram que pagar para salvar suas vidas.
Em 1 de Junho, Francesco Maria della Rovere e Michele Antonio de Saluzzo chegaram com reforço militar ao norte da cidade, mas também não conseguiram obter vitória contra as tropas anarquizadas e selvagens. Finalmente, em 6 de junho, Clemente VII rendeu-se e concordou em pagar 400.000 ducados por sua libertação, além de ceder os territórios de Parma, Placenza, Modena e Civitavecchia ao imperador. Veneza também anexaria Cervia e Rovenna. A pilhagem só terminou definitivamente em Fevereiro de 1528, oito meses após o ataque inicial, quando os suprimentos chegaram, a peste repelia os invasores e todos concordaram que a ocupação devia chegar ao fim.
Havia um ódio católico que se viu regozijado pelo aspecto da blasfêmia intencional: paródias obscenas de cerimônias religiosas, cálices de Missa usados para embriagar-se entre as maldições, hóstias assadas em panelas e dadas como alimento aos animais, túmulos de papas - como o de Julius II - foram violados, cabeças de supostos apóstolos (como a de Santo André) foram utilizadas como jogos pelas ruas, enquanto os soldados bradavam vivas a “Lutherus pontifex”.
Anéis pontifícios foram roubados, objetos sagrados como O Sudário de Santa Verônica e o Prepúcio de Jesus - que Clemente VII declarou como verdadeira relíquia e concedeu indulgência aos peregrinos que o visitassem (temos um artigo sobre ele aqui) - foram subtraídos. Um burro foi revestido de paramentos eclesiásticos e levado ao altar de uma igreja. O sacerdote que se recusou a dar-lhe a comunhão foi feito em pedaços, etc. Ludwig von Pastor trás em História dos Papas a citação de um espanhol, testemunha ocular, que pinta o seguinte quadro do saque: "Em Roma, capital da cristandade, não se toca nenhum sino, não se abrem as igrejas, não se reza uma Missa, não há domingo nem dia de festa. As ricas lojas dos mercadores servem de estábulo aos cavalos, os mais esplêndidos palácios estão devastados, muitas casas incendiadas, outras quebradas e levadas as portas e as janelas, as ruas transformadas em esterco. É horrível o cheiro fétido dos cadáveres: homens e animais têm a mesma sepultura; vi nas igrejas cadáveres roídos pelos cães. Não sei com que outra coisa comparar isso, exceto com a destruição de Jerusalém. Agora reconheço a justiça de Deus, que não falha ainda que venha tarde. (...) o mesmo papa que se moveu em fúria contra Brandano da Petroio, o louco de Cristo, que há poucos meses, gritou em São Pedro quando Clemente VII bendizia as multidões na Quinta Feira Santa: 'Bastardo sodomita, pelos teus pecados Roma será destruída. Confessa-te e converte-te, porque dentro de 14 dias a ira de Deus se abaterá sobre ti e sobre a cidade', hoje anda cabisbaixo e não é senão mera sombra da opalescência de ontem”. Outras profanações são citadas por André Chastel em Il Sacco di Roma e por Christopher Hibbert em Rome: The Biography of a City.
A Católica Bárbara Tuchmann em seu livro A Marcha da Insensatez, diz:
"No
dia 6 de maio de 1527, os invasores hispanos-germânicos romperam os muros e
entraram na cidade. A orgia de barbárie humana que se seguiu na sede de São
Pedro, capital da cristandade por 1.200 anos, deu bem a medida de quanto a
imagem de Roma tinha sido aviltada por seus dirigentes. Massacre, devastação,
fogo, estupro - tudo isso ficou absolutamente fora de controle (...).
A
ferocidade e a loucura sanguinária dos atacantes "teriam levado até uma
rocha às lágrimas", dizia um relatório encontrado nos arquivos de Mântua,
"escrito com mão trêmula". Os soldados assaltaram casa a casa,
matando no ato quem esboçasse a menor resistência. As mulheres eram violentadas
sem consideração à idade que tivessem. Gritos e gemidos se faziam escutar em
todos os quarteirões e o Tibre ostentava um desfile de cadáveres. Papa,
cardeais, cúria, oficiais laicos, amontoavam-se em Sant'Ângelo em verdadeiro
pandemônio, a ponto de um cardeal ter sido levantado dentro de uma cesta após
ter sido fechada a ponte levadiça. Fixados os resgates dos mais ricos, atrozes
torturas forçavam-nos ao pagamento; os que não podiam pagar eram assassinados.
Padres, monges, e outros religiosos foram liquidados com requintes de
brutalidade; as freiras, arrastadas aos bordéis ou alugadas aos soldados nas ruas.
Eles devastavam os palácios e depois incendiavam-nos. Igrejas e mosteiros foram
saqueados em busca de tesouros; relíquias, depois de retiradas suas coberturas
preciosas, eram jogadas fora, abriram-se túmulos à caça de mais tesouros, o
Vaticano acabou sendo usado como estrebaria. Quando atacavam arquivos e
bibliotecas, seu conteúdo espalhava-se ou passava a servir de colchão para os
cavalos. Observando a cena, até um dos Colonna chorou. ‘O inferno nada possui
capaz de ser comparado ao atual estado de Roma’, escreveu um veneziano.
Luteranos
dos terríveis lansquinetes, deliciados com esse cenário, parodiavam os ritos
pontifícios, andavam pelas ruas vestindo os ricos paramentos dos prelados, as
vestes e barretes rubros dos cardeais; um deles, fazendo as vezes de Papa,
exibia-se montado num asno. A primeira onda de carnificina durou oito dias.
Durante semanas Roma queimou em meio ao fedor de corpos insepultos e
destroçados pelos cães. A ocupação prolongou-se por nove meses, causando danos
irreparáveis. Estimativas calculam que dois mil cadáveres foram jogados no
Tibre, 9800 conseguiram sepultamento, com saques e resgates estimados entre
três e quatro milhões de ducados. Somente quando a peste apareceu e a comida
acabou, deixando uma população faminta, as hordas bêbadas e saciadas
retiraram-se do "matadouro fedorento" em que haviam transformado
Roma."
Apesar da estrondosa vitória, Carlos V mostrou grande fraqueza ao não conseguir domar suas tropas. Também seu cunhado, nosso tolo rei devoto e profundamente religioso D. João III, O Piedoso, não gostou nada das notícias alarmantes, assim como sua esposa e irmã mais nova do imperador, a srª Catarina da Austria. Em 21 de Maio, porém, Isabel de Portugal, irmã de D. João III e esposa de Carlos V deu a luz a um filho varão, o futuro Filipe II de Espanha. Era o início da Era Dourada do Império Espanhol, que não seria estremecido por causa de alguns pequenos "mal entendidos".
Já em Florença, a população irada pelo governo desastrado de Clemente, expulsam os Medici da cidade e proclamam a República na cidade. Pronto... tocaram na menina dos olhos de ouro dos Medici e Clemente se desespera. O papa permaneceu enclausurado em Sant’Ângelo por 7 meses, até que a peste na cidade fragilizou o cerco e criou as condições para uma rendição. Parte, com a bênção do imperador, para um refúgio em Orvieto e derruba as esperanças de Francisco I de retomar o controle da cidade... O que ocorreu no ano seguinte, mas novamente Francisco I é vergonhosamente derrotado por Carlos. Com frio e fome, Clemente chega até Bolonha e aceita os termos apresentados por Carlos, rendendo-se.
Leandro Karnal menciona um dado interessante. Diz ele: "Há exatos 491 anos, no dia 6 de maio de 1527, Roma foi invadida e saqueada pelas tropas do imperador Carlos V. A cidade viveu momentos de terror. As obras da Basílica de São Pedro foram transformadas em estrebaria pelos mercenários do Império Habsburgo. Tesouros foram saqueados em larga escala. Ao visitar a Stanza della Segnatura, no Vaticano, um professor de arte italiana mostrou-me um vandalismo do qual eu nunca ouvira falar: a palavra Luther (Lutero) feita a canivete sobre o afresco de Rafael (A Disputa do Santíssimo Sacramento)." (KARNAL, Leandro. Arte, Pompa e Circunstância, 06 de maio de 2018, O Estadão)
Erasmo de Roterdãn comenta o episódio dizendo: "O rio [Tibre] carregou centenas de cadáveres de religiosas, leigas e crianças violentadas (muitas com lanças incrustadas em seu sexo). Que coisa terrivelmente impressionante! As igrejas, inclusive a Basílica de São Pedro, foram convertidas em estábulos e missas profanas com prostitutas divertiam a soldadesca. Roma não era apenas a fortaleza da religião cristã, a sustentadora dos espíritos nobres e o mais sereno refúgio das musas; era também a mãe de todos os povos. Isto porque, para muitos, Roma era a mais querida, a mais doce, a mais benfeitora do que até seus próprios países. Na verdade, o saque de Roma não foi apenas a queda desta cidade, mas também de todo o mundo."
Saldo Final e Conclusões:
Esse episódio brutal é considerado o fim da Alta Renascença Italiana. Entre 6 a 12 mil romanos morreram no saque de Roma, com o total real provavelmente atingindo o dobro deste número.
Fragilizado politicamente pela invasão, o papa Medici cedeu às vontades de Carlos V até sua morte, adotando uma política sintética e conciliatória em troca de obter apoio do imperador e de seus Landskchnechtes para reaver Florença. E essa adoção incluiu carimbar as exigências do imperador, nomear cardeais indicados por ele, a coroação de si próprio como Rei de Nápoles (a última coroação efetuada por um papa), recusar a anular o matrimônio da tia de Carlos V - Catarina de Aragão - com Henrique VIII, que por sua vez rebelou-se contra Roma, recusando-se a continuar seguindo a direção espiritual de um fantoche do Sacro Império, o que terminou por desembocar na Revolução Protestante Inglesa – sobre a qual já falamos acima. Outro golpe de morte para a causa Católica: vitória do Progressismo, derrota da Santa Religião.
Clemente VII morreu envenenado em 25 de Setembro de 1534. Cortejo, fru-fru e toda a pompa típica do universo católico.. Quando, de repente, a população avançou sobre o túmulo do papa, arrancou o corpo dali, o pendurou em praça pública – como costumeiramente o fazem com o boneco do Judas em Sábado de Aleluia - e o esquartejou. A Itália foi traumatizada a ponto tal que não se atreveu mais a ingressar em guerras de grandes proporções por independência ou unidades até o século XIX. Roma, que havia sido um centro da cultura e patrocínio da Alta Renascença italiana antes do saque, sofreu despovoamento e colapso econômico, causando a dispersão de artistas e pensadores. O patrocínio da Igreja aos projetos de grandeza estética da Religião tornou-se uma fração do que eram antes do saque. A Igreja estava sem condições de impor-se perante a enormidade de heresias como fazia antes... Terreno fértil para o iluminismo e para a Liberdade cantar feliz como uma cigarra.
A população da cidade caiu de mais de 55.000 antes do ataque para menos de 10.000 depois, isso sem contar as pestes e doenças provocadas posteriormente em virtude da quantidade de corpos que não foram enterrados imediatamente.
Com esse clima tão favorável ao Sacro Império na Santa Sé, Carlos tentou criar nacionalmente base para sustentar a Igreja no âmbito nacional. Em 1529 - com os ares imperiais já mais calmos -, foi promulgada a Dieta de Speyer de 1529, nela, a Igreja e o imperador condenaram veementemente os resultados da trégua dada na Dieta de Speyer de 1526. O objetivo era combater fortemente o luteranismo crescente, obrigar os príncipes a impor o catolicismo em unidade no Sacro Império Romano-Germânico, proibir futuras Reformas e passar a obrigar o Édito de Worms.
Como o Movimento Luterano já havia se aproveitado de toda esta hesitação, sua consistência já estava muito bem desenvolvida. Evidentemente, o protestantismo já tinha ganhado o coração dos civis, então, os príncipes, nobres e poderosos (alguns visando simplesmente derrubar o catolicismo, outros, convertidos de fato) organizaram o chamado Protesto de Espira, em que João da Saxônia, Felipe I de Hesse, o Magnânimo, Ernesto I de Brunswick-Luneburgo, Francisco de Brunswick-Luneburgo, Jorge de Brandeburgo-Ansbach e Wolfgang de Ascânia, seis príncipes e mais quatorze cidades livres do Sacro Império Germânico apresentaram um documento em 19/04/1529 para protestar contra a Dieta de Espira de 1529, cuja finalidade era continuar impondo a Igreja Católica e que anulava aquilo que se entendeu como o embrião da Tolerância Religiosa.
Como Fernando I (irmão de Carlos V e futuro sucessor de Carlos na Áustria e Alemanha e que o estava representando na ocasião, em Espira) recusou a escutar os príncipes, eles escreveram o Protesto e leram-no. Com a inflexibilidade do Rei, os protestantes apresentaram, no dia seguinte, a Carta de Protesto, na qual sustentavam que a autoridade secular não podia impor sua autoridade em matéria de Fé. O rei negou-se a receber a carta, mas ela foi impressa e difundida publicamente.
"A Dieta teve sua última reunião em 24 de abril, e a decisão oficial foi lida uma vez mais, sem nenhuma alusão ao protesto luterano. Em resposta, os príncipes e delegados de cidades luteranas reuniram-se no dia 25 e redigiram um Instrumento de Apelação, no que reiteraram suas objeções. Esta última é a que se considera a data e o texto do Protesto. Neste mesmo dia, o Eleitorado da Saxônia, Hesse e as cidades de Estrasburgo, Ulm e Nuremberg comprometeram-se secretamente a selar um tratado defensivo em caso de serem atacados pelo imperador ou algum dos Estados católicos."
Em 1530, o Imperador, assustado, convocou a chamada Dieta de Augsburgo de 1530, com o intuito de tentar, mais uma vez, diluir as tensões entre católicos e protestantes. Nesta Dieta, os protestantes apresentaram, em 25/06/1530, a Carlos V a Confissão de Augsburgo, um documento central para o luteranismo redigido por Felipe de Melanchton. O papa convocou uma equipe de teólogos católicos para fazer uma refutação ao documento denominada Confutatio Pontifícia que foi lançada em 03/07/1530, tal refutação foi prontamente respondida por Melanchton com a Apologia da Confissão de Augsburgo (1531). Neste mesmo período, líderes das duas confissões reformistas, Luteranismo e Anabatismo encontravam-se e precisavam suas semelhanças e diferenças na chamada Disputa de Masburgo.
Ainda em 1531, os estados evangélicos formaram a chamada Liga da Esmalcada para resistir a qualquer investida católica, que viria futuramente a desembocar em duas outras grandes guerras religiosas. Uma delas, a Guerra da Esmalcada (1546-1547), terminou com a vitória dos católicos. Após o fim deste conflito, em especial, após a sangrenta Batalha de Mühlberg (24/04/1547) foi-se convocada a Dieta de Augsburgo de 1547-1548, ali, foi-se proclamada o Interim de Augsburgo, um decreto imperial que pretendia solucionar o problema religioso com algumas concessões aos protestantes, mas fazendo prevalecer os critérios católicos da unidade estatal, dando prioridade à Igreja de Roma. Tal interim foi recusado pelos príncipes luteranos, o que levou o império alemão ao segundo round do conflito, a Guerra dos Príncipes (1552-1555), que, este sim, terminou com a vitória dos evangélicos sobre o Império Católico. Após o término da Guerra dos Príncipes, os evangélicos que iniciaram a Guerra com a pretensão de concretizar os intentos da chamada Paz de Passau (1552), acabaram a substanciando com a chamada Paz de Augsburgo (1555). O Tratado reconhecia tanto "a velha religião" como "a Confessio Augustana", estabelecendo o princípio Cuius regio, eius religio ("a tal rei, tal religião"), que dava à cada príncipe o poder de decidir (entre essas duas, com exclusão de qualquer outra, como a calvinista) a religião de seus súditos (vale ressaltar que, nesta época, quando os reis e príncipes se convertiam a uma nova religião, seus súditos eram compelidos à conversão), com algumas exceções (Declaratio Ferdinandei e Reservatum ecclesiasticum).
Nesse interim, Carlos V viu-se obrigado a fugir para não ser preso por um ataque de Henrique II da França e Maurício da Saxônia. Fragilizado, abdica em 25 de Outubro de 1556, deixando Reino Espanhol, Países Baixos, Franco Condado e Itália para seu herdeiro Filipe II e o Sacro Império para Fernando I (seu irmão).
Em 1560, mais um cisma Protestante importante eclodiu. Desta vez, na Holanda. Era o Arminianismo (que surgia como dissidência do Calvinismo). É importante ressaltar que o Luteranismo se opunha ao Anglicanismo e ao Calvinismo. As recíprocas são verdadeiras. O Arminianismo surgiu a partir das ideias de Jacobus Arminius e iria influenciar diretamente no pensamento das futuras novas dissidências dos Protestantes, os Metodistas, Congregacionalistas, Batistas, Universalistas e Unitários. Os arminianos acabaram acentuando as rixas entre os protestantes, especialmente entre os calvinistas. Outro detalhe importante de mencionar é que esses protestantes ao perceberem que introduziram a anarquia no cristianismo, trataram de promover Assembleias, que nada mais eram do que versões protestantizadas dos concílios católicos, como a Confessio Augustana ou mesmo a Assembleia de Westminster (1643-1649), composto por um Parlamento calvinista que se reuniu na famosa abadia de Westminster. Seus integrantes foram cerca de 120 dos mais piedosos e cultos ministros puritanos, ao lado de uns poucos, mas influentes, presbiterianos escoceses. Após extensos debates, o texto da confissão foi concluído no final de 1646. Posteriormente foram incluídas as passagens bíblicas de apoio, ocorrendo em 1648 a aprovação final do Parlamento. Seu título era: “Artigos de religião cristã, aprovados e sancionados por ambas as casas do Parlamento, segundo o conselho da Assembleia de teólogos ora reunida em Westminster por autoridade do Parlamento”. Esses neoconcílios visavam limitar o horizonte interpretativo das Sagradas Escrituras, substituindo a Autoridade do Magistério Católico e a lacuna de poder que o vácuo da sola scriptura deixou.
Em resposta à Reforma Protestante crescente na Europa, o papa Paulus III promoveu a Contra-Reforma, ou Reforma Católica, através do Concílio de Trento (1545-1563) no Vaticano. Neste concílio, foi reiterado todos os pontos católicos que sofriam críticas dos Protestantes e Humanistas, além de Reativar os Tribunais do Santo Ofício (Inquisição): responsáveis por julgar todos os casos de heresia, especialmente os praticados pelos protestantes. Reconheceu-se a criação da Companhia de Jesus (um grupo militar religioso que se denominavam Jesuítas e que eram responsáveis por conter o avanço protestante na Europa e por levar o cristianismo católico à regiões não cristianizadas, como América, Ásia e África) e criou-se o Index Librorum Prohibitorum, uma lista de livros proibidos e censurados (livros de ciências, poesias, romances, literatura humanista e renascentista variada, bruxaria e, claro, literatura protestante).
Em 1566, os estados católicos alemães emitiram a Dieta de Augsburgo de 1566, que validou os decretos do Concílio de Trento nos estados ainda católicos do Sacro Império Germânico. Tal atitude, além de outros ressentimentos que não foram solucionados, iria dar início futuramente ao novo episódio, desta vez em escala continental da treta entre católicos e protestantes, a chamada Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), este conflito teve como pivô a desagregação do Sacro Império Romano Germânico, com os protestantes da Boêmia e da Áustria rebelando-se contra Fernando de Habsburgo, imperador do Império. A Espanha ficou do lado do Imperador e a França, Dinamarca e Suécia apoiaram os protestantes. Em 1580, Portugal foi anexada pelos Habsburgo à coroa espanhola e a Holanda passou a opor-se, sendo auxiliada pela França, ao arbitrário domínio católico dos Habsburgo espanhóis, protagonizando grande revolta popular que foi diluída após uma série de guerras que só terminaram em 1648. Em 1640, Portugal volta a declarar independência da Espanha no movimento chamado Restauração. Em 1648, a guerra chegou ao fim e a região alemã tornou-se um conjunto de estados autônomos com o Tratado de Westfállia.
Na França católica, as frágeis tentativas do Rei Francis II e de Mary Stuart de evitar que os conflitos religiosos desaguassem internamente foram frustradas pelas sangrentas guerras internas entre calvinistas reformados
(chamados de huguenotes) e católicos. O sangue de cerca de 3 milhões de pessoas foi derramado na Primeira Guerra
(1562-1563), Segunda
(1567-1568), Terceira
(1568-1570), Quarta
(1572-1573), Quinta
(1574-1576), Sexta
(1576-1577), Sétima
(1579-1580) e Oitava
(1585-1598). Um desses episódios é considerado o mais violento na guerra entre católicos e protestantes mundial, é o chamado
Massacre da Noite de São Bartolomeu, ocorrido em 1572. Na ocasião, milhares de huguenotes foram exterminados em um grande genocídio protagonizado por católicos. As disputas não terminam na Oitava Guerra, ainda teremos o
Cerco de la Rochelle (1627-1628),
Guerra dos Camisards (1702-1715) e contou com sucessivos atos políticos que visavam por fim aos conflitos e ceder aos huguenotes
(posteriormente rechaçadas pelo clero que não aceitavam conviver com a liberdade religiosa). Como exemplo, cite-se os
Éditos de Nantes que foi assinado pelo rei Henrique IV em 1598 e que o levou a ser assassinado por um católico em 1610, reiniciando os conflitos. Luís XIV, novo rei da França, sob pressão do Clero Católico, revogou o Édito de Nantes através do
Édito de Fontainebleau em 1685, restabelecendo a perseguição aos protestantes. Além dos mortos, estima-se que entre 200-500 mil protestantes deixaram a França e instalaram-se nos países vizinhos, entre funcionários do governo, soldados e burgueses, a ponto de abalar severamente a economia francesa. Em 1787, Luis XVI cede e assina o
Édito de Tolerância, considerado um marco no fim dos conflitos religiosos... Já não era o bastante para desarmar a panela de pressão que exigia liberdade: dois anos depois a Revolução Francesa propriamente dita começa. A Revolução Francesa estabelece não apenas liberdade religiosa, mas também separação formal e fática entre Igreja e Estado, sendo considerada a Mãe do
Estado Laico (Ideia que a Igreja Católica notoriamente – mas, em vão - vai perseguir e abominar). Nesse formato de sociedade que surge, esses segmentos dão origem a dissidências, dissidências de dissidências e dissidências de dissidências de dissidências. Só em SP em 2018 foram por dia registradas 8 novas igrejas. Os ideais desta Revolução serão disseminados por todos os continentes e este evento é considerado o marco que põe fim à Idade Moderna e dá início à Idade Contemporânea que vigora até hoje. Assim surgem as Igrejas dos Surfistas, do Silas Malafaia e do Edir Macedo, a Igreja Gay, a Igreja do Pastor Batatinha, etc...
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